Quando conheci Ferro Rodrigues, na altura Secretário Geral do Partido Socialista, fazia quase um ano que o escândalo Casa Pia ocupava os jornais e as atenções do País.
Alguém me apresentou como o dirigente estudantil a quem o Governo estava a dificultar a vida e ele, com problemas bem maiores, disse-me cordialmente: para lidar com os obstáculos haja determinação e firmeza.
Hoje poucos têm dúvidas que Ferro Rodrigues tenha sido alvo de uma campanha caluniante que o prejudicou profundamente. Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados não receou dizer que houve orientação política na investigação da Polícia Judiciária e que a intenção era a de decapitar a direcção do PS.
Mergulhar na actividade política e, por consequência, na exposição pública, é uma decisão que muda definitivamente a vida de quem o faz e das suas famílias. Essa decisão supõe uma reflexão madura, profunda, sincera e uma impiedosa auto-análise sobre até onde se está disposto a ir por uma causa ou uma ideia e o que se está disposto a aceitar como implicação daí decorrente.
Julgo que uma das razões mais relevantes que afastam muitas pessoas da vida política tem que ver com a sua indisponibilidade para aguentar agressões, acusações e calúnias ou boatos.
O recurso a estes estratagemas é usado, com frequência, nas disputas políticas e por isso é também habitual assistirmos a ataques pessoais entre candidatos opositores, uns mais descarados, outros encapotados. Na ordem dos primeiros lembro a campanha das últimas legislativas, uma das mais negativas que assistimos na nossa vida democrática, onde o actual primeiro-ministro foi vítima de alguns golpes de tom sexual ligeiramente demente.
Este modus operandi parece contribuir para a ideia negativa que a maioria das pessoas tem formada da política e dos políticos.
Para o bem e para o mal a vida dos políticos tem forte projecção nos media e, se bem que estes possuam um poder escrutinador que garante a qualidade da democracia, expondo crimes, corrupção e mentira, são também, por vezes, caixas de ressonância do escândalo e da infâmia gratuita.
O exemplo dado aqui é um dos maiores que conheço. Mas podia referir outros, que se desenrolaram à escala mundial como os que abalaram Joschka Fischer, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-chanceler da Alemanha, envolvido injustamente nos crimes violentos da Fracção do Exército Vermelho de Baader e Meinhof, ou Daniel Cohn-Bendit, a cara do movimento de Maio de 68, acusado levianamente de pedofilia.
Portanto não deixa de ser corajosa a decisão daqueles que querem dedicar a sua vida à política, no sentido da arte nobre, feita por quem está disposto a correr riscos para defender uma causa ou uma ideia. Não consigo embarcar na facilidade com que se acusam os políticos. É que é muito mais sério, honesto e útil discutir políticas e não pessoas, se bem que mais difícil. Haja para isso determinação e firmeza.